quinta-feira, 13 de outubro de 2011

o roto e o esfarrapado

Não estava exatamente tendo a melhor noite da minha vida quando um gordinho bêbado chegou para falar comigo, em um bar cujo cheiro não gosto de lembrar. Agora não sei mais dizer qual foi a com certeza criativa abordagem. O que eu sei, de fato, é que a trela que lhe dei foi por puro tédio, e que, quando percebi, uns minutinhos já tinham passado, e eu estava ali lhe oferendo conselhos amorosos.
"O que eu faço?! Eu gosto dela", me dizia o gordinho - e, meu deus, que cabelo engraçado -, "mas ela, SIMPLESMENTE, não me dá bola." Ele e seus cachos despenteados balançavam tanto que me afastei um pouquinho, procurando não levar um banho de vodka. Sua feição me parecia realmente desesperada, mas eu, no auge de minhas grandiosas experiências amorosas, pareci ver, de repente, a solução de todos os seus problemas, com a mais absoluta clareza.
"E por que você gosta dela?", perguntei. Era tão óbvio. Temos aqui, senhoras e senhores, mais um caso de pura idealização. Ele provavelmente nem fala com ela.
"Por que eu gosto dela?" Ele parecia realmente estar tentando pensar. "Cara, não sei."
Há. Na mosca. Idealização. 
"Então para quê?!", perguntei.
"Pra que o quê?!"
"Para que ficar sofrendo em vez de aproveitar a vida. Em vez de aproveitar hoje." Era, apesar de eu ainda não ter percebido, aquela tal história do roto falando do esfarrapado.
O gordinho tomou um gole de vodka, e, logo depois, levantou seu copo. Eu, que já tinha me re-aproximado, me re-afastei. "O amor não é racional", começou ele, com muita certeza. E então sorriu. "Ah, sei lá... Ela me deixa feliz. É por isso que eu gosto dela."
"Ah é?! Você está feliz agora?"
Seu sorriso sumiu. Ele pareceu realmente intrigado. Bêbado, mas intrigado.
"O amor pode ser racional, sim", comecei eu, com mais certeza ainda, e nem sei bem como.
Ele ficou quieto. Estava bêbado demais para escutar qualquer um dos meus conselhos (e, no final das contas, sou grata por isso); e acabou foi pulando e insistindo que eu virasse minha cerveja (proeza da qual sou cientificamente-comprovadamente incapaz) e ficasse com o cara do meu lado.
Não me lembro bem do que aconteceu depois, muito menos de como nos despedimos; mas lembro do resto da minha noite. O fato de eu tê-la passado inteirinha pensando em quem não deveria pensar não me intrigou, contrariamente ao gordinho, nem um pouco. Me parecia tão natural lembrar, naquele momento, de quem eu não devia. Parecia inevitável me lamentar e querer que ele estivesse ali; normal não conseguir aproveitar nenhum minuto da minha noite. Tudo me parecia tão "faz-parte" que me permiti esquecer das rugas de preocupação na testa do gordinho quando lhe contei, cheia de mim, que o amor podia ser racional. E é só hoje, depois de comer uma quantidade um tanto quanto irracional de fatias de pizza e ao me dar conta de que estou ouvindo músicas mais românticas do que eu jamais me autorizaria ouvir, que eu percebo aquele momento.
O roto falando do esfarrapado.
Primeiro de tudo, quem sou eu para falar de amor?
E segundo (mas não menos importante) de tudo, como eu faço para me livrar dele?

A rota pede aos esfarrapados que compartilhem suas propostas e teorias. Por mais furadas, idealizadas e irracionais que elas possam ser.

7 comentários:

  1. somos sempre rotos falando dos esfarrapados vevinha, inevitavelmente, mas um dia aprendemos, assim espero!!!!!!

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  2. "Como eu faço para me livrar dele?"
    Se souber como, me avisa!


    Simples e delicioso de ler! Ainda vou te ver escrevendo em uma coluna por aí,de preferencia em NY ( comigo junto, é claro)!!
    Beijo, Rafa

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  3. Pq nao virou a cerveja e ficou com o cara afinal?

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  4. ótima pergunta, mas acho, realmente, que não tem como. Ou o amor acaba ou não, sabe? Mesmo que você decida "esquecer", se ele aparecer, muitos anos depois, alguma coisa possivelmente vai rolar (ou você vai querer que rolasse).
    O amor é isso, ou ele acaba, por qualquer motivo que seja, ou ele vai viver pra sempre com você (só não vai mais ser o centro das duas suas atenções).
    simplesmente não tem como "se livrar" dele. Não tem.

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  5. "acabou foi pulando e insistindo que eu virasse minha cerveja (proeza da qual sou cientificamente-comprovadamente incapaz) e ficasse com o cara do meu lado.
    Não me lembro bem do que aconteceu depois"

    Que perigo! hahahahahaha

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  6. É o que da ir a estes lugares sozinha.. (estava sozinha?), de qualquer forma sempre me pego pensando em amores indevidos quando vejo os outros se amando do meu lado.

    Ótimo texto, parei aqui por acaso e me surpreendi!

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  7. Andressa Dalledone18 de outubro de 2011 13:07

    Se livrar, não tem como...experiência própria...
    Mas a minha dica é a seguinte: passe o seu tempo pensando em vc! Nesses momentos é muito saudável ser egoísta e investir em vc mesma, faça tudo o que for possível para se tornar uma pessoa melhor, mais interessante e mais feliz (e quando eu digo feliz, é feliz com você mesma e não com alguém que dependa disso). E então, as coisas vão acontecer, com ele ou com um novo ele.

    Isso funciona, acredite, experiência própria!

    Beijinhos!!

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